BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Persian, English, Sexo, Dinheiro


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Vídeo do dia: O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

(Le Fabuleux Destin d'Amélie Poulain/01)

Direção: Jean-Pierre Jeunet • com: Audrey Tatou (Amélie Poulain), Mathieu Kassovitz (Nino Quincampoix), Rufus (Raphäel Poulain), Dominique Pinon (Joseph).

O cinema francês sempre me causou reações ambíguas. Nos anos 60, Godard, Truffaut e outros integrantes da nouvelle vogue praticamente reiventaram o cinema de autor e influenciaram toda uma geração de diretores americanos como Woody Allen e Martin Scorsese. No entanto, muitas produções francesas deixam a desejar no aspecto "pipoca". Seja pela crudeza técnica, por temas excessivamente escatológicos ou simplesmente pela pretensão intelectualóide.

“O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, por sua vez, mostra uma outra faceta do cinema francês: a do entretenimento de qualidade, com altos recursos técnicos e capacidade de arrebatar platéias pelos quatro cantos do globo.

Outras recentes produções daquele país, como “Asterix e Obelix Contra César” (Asterix/00) e “O Closet” (Le Placard/01), fazem parte desse cinema de exportação, mas “O Fabuloso Destino” é, disparado, o exemplo mais bem acabado.

Dez anos depois de alavancar sua carreira com a comédia bizarra “Delicatessen” (idem/91), Jean-Pierre Jeunet lapidou seu estilo peculiar - que tem um quê da linguagem da publicidade e do video-clipe - com o know-how adquirido no cinema industrial americano via “O Quinto Elemento” (The Fifth Element) e “Alien - A Ressurreição” (Alien Ressurection).

Em “O Fabuloso Destino” temos também personagens recorrentes de seu filme de humor dark. Em “Delicatessen”, Jeunet brindou o espectador com gente esquisita como uma suicida frustrada e um velho que vive numa pocilga infestada de lesmas e sapos. Já em “O Fabuloso Destino”, seus equivalentes são uma hipocondríaca amargurada e um pintor obsessivo que tem os ossos frágeis como vidro.

Acima de tudo, o que ambos os filmes têm em comum é a quantidade de personagens e a poesia de certas sequências. “O Fabuloso Destino”, no entanto, é uma obra literalmente mais colorida (Jeunet abusa das cores primárias, especialmente do verde e do vermelho berrante) e cheia de vida.

Com este filme, o diretor - intencionalmente ou não - nos leva a acreditar na existência de pessoas especiais. É essa a sensação causada quando nos defrontamos com a pureza de Amélie Poulain, personagem interpretada com brilho pela revelação Audrey Tatou, que atuaria depois no ótimo “Coisas Belas e Sujas” (Dirty Pretty Things/03).

De fato, “O Fabuloso Destino” é um filme sobre a beleza dos pequenos detalhes da vida e a sutil poesia do cotidiano.

Amélie é a filha única de um casal “complicado” e sua vida é mostrada desde a concepção. Aliás, esta cena de abertura é um arraso: Jeunet brinca com a idéia do tempo, lança mão de várias inserções de banco de imagens e quando o espectador menos percebe, já foi fisgado e só desgrudará os olhos da tela 2 horas depois.

Cabe aqui um parêntese: outro filme europeu de vitoriosa carreira internacional – “Corra, Lola, Corra” (Lola Rennt/01) - trabalhou de forma muito parecida o conceito de tempo. Quem assistiu ao filme de Tom Tykwer com certeza não esquece das cenas em que a personagem de Franka Potente esbarrava acidentalmente em anônimos e mudava o destino deles.

Na obra de Jeunet, no entanto, a vida das pessoas muda muito mais pela motivação da doce Amélie do que por puro acaso. Depois de deixar a casa do pai (Rufus) - um viúvo amargurado - e se mandar para Paris, a mocinha arranja emprego de garçonete e em seu tempo livre espia as nuances da cidade grande com simpática curiosidade e sonha de olhos abertos com a ajuda da TV.

Certo dia em seu apartamento, Amélie descobre uma caixinha escondida com os brinquedos de um menino que ali morou nos anos 50. Decidida a encontrar o dono da caixa e devolver a ele o tesouro perdido da infância, Amélie tem o impulso de realizar uma série de boas ações para melhorar a vida de quem a cerca.

A idéia é simples, mas encanta pela forma como é mostrada. No deserto criativo de Hollywood, conceito semelhante ganhou vida na forma do drama piegas “A Corrente do Bem” (Pay it Forward/00). A visão francesa, ao contrário, tem jeito de sonho e exageros justificados pelo tom de realismo fantástico.

Não há um momento de tédio ou demasiado açúcar em “O Fabuloso Destino”. Todas as cenas são bem planejadas e auxiliadas por uma câmera ágil e direção de arte minuciosa.

No meio da jornada sonhadora de Amélie, há espaço para os diversos personagens concebidos por Jeunet. Alguns se sobressaem, como o ciumento patológico vivido por Dominique Pinon (protagonista de “Delicatessen:) que, toda vez que surge na tela, simplesmente rouba a cena. Nino (Mathieu Kassovitz) - amor platônico de Amélie - é outra figura misteriosa e carismática.

“O Fabuloso Destino” foi fotografado de forma primorosa e faz uso de todas as suas louváveis qualidades técnicas para contar uma história que emociona, inspira e faz rir.

Sucesso arrasa-quarteirão em sua terra natal, o filme de Jeunet conquistou ainda 5 indicações ao Oscar 2002, mostrando que, de vez em quando, a Academia privilegia algo além do marketing selvagem dos estúdios.





-- Em DVD: Os únicos extras são o trailer promocional e entrevista com Jeunet (em telas de texto).


 Escrito por Mr Eddy às 22h21
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ZOO TV - Observações sobre o BBB

Big Brother Brasil é provavelmente o programa mais intrigante da TV aberta. Há incontáveis motivos para abominar o reality show: os papos de botequim sobre as bobagens que acontecem “na casa”, a imprensa marrom que insiste em mamar no sucesso global e o enxame de pseudo-celebridades que invade o minguado show bizz brasileiro após cada edição do programa.

As razões são suficientes para declinar os convites do Pedro Bial e NÃO espiar coisa alguma. Dito isso, confesso que tenho acompanhado com razóavel interesse – e pela primeira vez – o tal BBB.

E o que o programa tem de intrigante? Quase tudo. A idéia do zoológico humano é de um voyeurismo brutal. Num mundo que fica cada vez menor, com tantos aparatos para comunicação, ainda faltava entrar pelo buraco da fechadura. Não bastava adolescentes anônimas deixarem suas webcams ligadas na penteadeira o dia todo. Não, era preciso mais câmeras, tecnologia, conflitos, intrigas e testes de resistência. Tudo isso porque, além de diminuir a distância entre você e um desconhecido qualquer, existe agora a busca incansável pela “realidade”. Ainda que essa "realidade" seja filtrada por lentes e editada em sistema não-linear.

O BBB pode ter sido o primeiro ou o mais importante exemplo, mas a doença se alastrou por todos os formatos. Sitcoms sobre a vida “real” – The Osbournes, Na Real ou Família MTV -, testes de resistência psicólogica, como o Scream Test, e várias outras aberrações fazem parte do fenômeno. Não que isso seja lá tão novo, mas suscita reflexão.

É possível que o Big Brother brasileiro, da forma que é, tenha se revelado para mim só agora. Todos os arquétipos estão ali e também a falsificação da realidade, a manipulação audiovisual e o circo social brazuca. Há desde chavões como a batalha entre os sexos, até um forçado conflito de classes. Entre os tipinhos, tem a dondoca, a manipuladora, o rebelde, o puxa-saco, o humilde e a coitada. Mas até que ponto aquilo que vemos é a representação da realidade?? Taí o ponto mais intrigante do BBB. Em entrevista recente, o cineasta Hector Babenco afirmou que até documentários são uma forma de ficção. Basta existir câmeras, edição, um roteiro mínimo, luz artificial ou qualquer outro recurso que se proponha a captar a realidade e o resultado final é ficção.

A Vênus Platinada, com seu famoso padrão de qualidade, montou um zoológico hi-tech com cerca de 60 câmeras ocultas e apresenta, todas as noites, uma edição compacta das atividades da casa. Agora façam as contas: 60 câmeras gravando 24 horas non-stop e temos 1.440 horas de material bruto diariamente! Claro que, em boa parte do tempo, as câmeras gravam o nada (o que não deixa de ser um tanto sinistro), mas ainda sobram muitas e muitas horas de fita.

De que forma esse material é organizado é a parte mais fascinante dessa história. Nas mãos da talentosa equipe de editores da Globo, todo dia sai um capítulo da novela real. Os confinados tornam-se atores, e não por suas virtudes dramáticas, mas por uma maquiavélica técnica de decupagem e copy+paste! Some a isso a trilha sonora e as impressões pessoais do anfitrião Pedro Bial, e você tem um novo tipo de ficção.

A dúvida que surge é justamente sobre os personagens na tela prateada. Quem eles estariam interpretando? A si próprios? Seria isso possível??

Em última análise, os panacas em frente da tela também são parte dessa bem azeitada falsificação. Como no voyeurismo doente de “O Show de Truman”, de Peter Weir, o País pára para assistir ao reality show do canal 5. O número de telefonemas a cada paredão chega a 8, 9 e até 10 milhões!

Com tamanha amostragem, é até possível traçar um perfil do brasileiro médio, conforme ele elimina participantes do programa. Os rebeldes e irreverentes são fuzilados sem piedade na votação popular. Aos pobres, humildes e benevolentes, toda a admiração do público. E nesse perfil maluco, ainda entram a inveja feminina, o sentimento de vingança e a solidariedade virtual. Para todos os efeitos, os personagens são reais...


 Escrito por Mr Eddy às 18h07
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Álbum do dia: Probot

Dave Grohl, ex-baterista do Nirvana, líder do bem sucedido Foo Fighters e moderno ícone da MTV, é um dos maiores exemplos de artista inteligente, bem resolvido e preparado para a profissão de entertainer.

O sujeito tem respeito, fortuna e status para se aposentar ou cair de cabeça nas extravagâncias do rock. Ao invés disso, Grohl está focado em produzir música. Nos intervalos de gravação de sua bem sucedida cria pop, ele já emprestou as habilidades de baterista para gente como Killing Joke e, mais notadamente, Queens of the Stone Age. Sua nova empreitada - o projeto low profile batizado de Probot - é uma prova inconteste de como usar dinheiro, fama e influência para fazer coisas legais e artisticamente relevantes.

O Probot começou a nascer após a gravação de Nothing Left to Lose, de 1999. O álbum mais pop do Foo Fighters pode ter, indiretamente, impulsionado Grohl a compor riffs de guitarra mais nervosos em seu estúdio caseiro. Em alguns dias, ele tinha um punhado de músicas gravadas - com baixo, guitarra e bateria. O resto do que veio a ser o CD do Probot só foi escrito dois anos mais tarde. No mesmo estúdio e em apenas três dias.

“Eu comecei a gravar por diversão, mas aí a coisa começou a tomar forma e resolvi falar com algumas pessoas pra levar adiante. Mas eu estava muito nervoso em contactar alguns desses caras”, revelou Grohl à revista inglesa Kerrang. Mas, afinal, quem são “esses caras”?

Explica-se: o ex-baterista do Nirvana fez uma lista de seus vocalistas de metal prediletos e começou a contactá-los por telefone ou email. Cronos (Venom), Tom Warrior (Celtic Frost), King Diamond (Mercyful Fate), Snake (Voïvod) e o deus do rock, Lemmy Kilmister, fazem parte da lista.

O álbum é resultado dessas inusitadas parcerias. De todos os vocalistas convidados, apenas Wino e Lemmy gravaram no mesmo estúdio que Grohl. Os outros participantes receberam apenas uma versão instrumental pelo correio e encaixaram a voz como bem entenderam. As letras também foram escritas por cada vocalista sem qualquer interferência do líder do Foo Fighters. Leia abaixo uma breve descrição de cada faixa do álbum.



PROBOT

Faixa a faixa

Centuries of Sin (com Cronos)

Um efeito de guitarra sinistro abre o CD e emenda com um riff reto e o baixo “podrão” de Cronos. A voz do ex-líder do Venom continua a mesma e linha de vocal é perfeita. Algumas mudanças de andamento, bom refrão e um trecho porrada que lembra o próprio Venom. Excelente!!

Red War (com Max Cavalera)

Muito pesada. Traz interessantes arranjos de guitarra e a voz poderosa de Max Cavalera acrescentada de alguns efeitos de estúdio. Parece uma faixa perdida das seções de Chaos AD, do Sepultura! Grohl toca todos os instrumentos. Excelente de novo!

Shake Your Blood (com Lemmy)

Motörhead século 21. O som do Rickenbaker e a voz rouca são puro Lemmy, mas o timbre e a distorção de guitarra têm uma cara mais moderna. Rock’n’roll enfezado com ótimo refrão. Emocionante. É o melhor início de um disco pesado em muitos anos!

Access Babylon (com Mike Dean)

O vocalista original do Corrosion of Conformity num hardcore meio metal, que era justamente a praia da banda. O riff é simples e a música, mais curta que a média. Um pouco estridente depois das 3 primeiras e, talvez por isso, soe como a mais fraca do CD. Tem guitarra adicional de Bubba Dupree.

Silent Spring (com Kurt Bretch)

Parece o trabalho de uma banda inteira, mas é Grohl tocando sozinho. O músico se supreendeu que a voz de Kurt Bretch (D.R.I.) não tenha mudado nada com o tempo, mas é Kurt quem deveria agradecer: ótimo instrumental com riff hipnótico e timbragem linda de todos os instrumentos.

Ice Cold Man (com Lee Dorrian)

Doom metal clássico. Feita sob encomenda para o vocalista Lee Dorrian, a canção parece saída de algum disco do Cathedral. Kim Thayil, ex-Soundgarden, participa na segunda guitarra. Tem uma quebrada meio stoner rock e ótimo drumming de Grohl.<

The Emerald Law (com Wino)

O ex-vocalista do Spirit Caravan e do St Vitus numa das melhores do CD. Com clima “sabbático”, linha de baixo interessante e riffs “setentosos”. O solo de guitarra fica por conta de Wino.

Big Sky (com Tom Warrior)

Talvez porque não soe muito como o Celtic Frost, Tom Warrior pareça aqui pouco inspirado. Ou sua voz está apenas diferente? De qualquer forma, o instrumental é o que mais se destaca. Tem guitarra extra de Erol Unala. Segundo Grohl, Kurt Cobain e Krist Novoselic eram fãs de Celtic Frost. Essa é nova…

Dictatosaurus (com Snake)

Snake rouba a cena numa das melhores do disco. É mais “reta” do que o Voïvod dos anos 80, mas algumas mudanças de tempo e a métrica do vocal fazem soar como uma faixa perdida da banda canadense. O refrão é bem pop e é a única coisa no CD que chega perto de lembrar o Foo Fighters. Excelente!!

My Torture Soul (com Eric Wagner)

Outra canção “sabbática” e, novamente, tem um porquê: quem canta aqui é Eric Wagner, vocalista da clássica banda white metal Trouble, que era (é) altamente influenciada por Sabbath. Faixa MUITO pesada e com riffs de guitarra meio stoner. Um dos destaques do CD.

Sweet Dreams (com King Diamond)

Algum dia você já imaginou que sairia uma música da união entre King Diamond, Dave Grohl e Kim Thayil?? Com certeza, não. Tem interessantes arranjos de guitarra e o cantor do Mercyful Fate mais contido do que costume em sua estrepolias vocais. Supreendente.

-- Esse post é um versão bem resumida da matéria que escrevi para próxima edição da revista Rock Press. A revista chega às bancas em uma ou duas semanas. Confira.

 Escrito por Mr Eddy às 16h21
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O mochileiro - Final

Amsterdã-Roma. Dezoito horas de trem. “Hey, você!”. O policial na plataforma da estação aponta para mim. “Gostei do seu boné, é do melhor time do mundo”. O sujeito usava brinco de argola e torcia para o Ajax. Já no trem, ocupo dois assentos da minha cabine e estico as pernas. Permaneço sem companhia até a estação de Utrecht, quando um oriental simpático e desajeitado aparece.
O baixinho de quarenta e poucos anos se acomoda e logo puxa conversa. “Oh, Blazil?? Vely nice football! Vely nice football!”. O carinha fala entusiasmado sobre Zico e o carnaval.

Anoitece cedo e tento cochilar. Clac, clac, clac! Cheiro de peixe. Abro os olhos com preguiça e vejo o japa preparando seu jantar numa tábua de cozinha. Facas Ginsu e duas latinhas de peixe. Ele oferece o rango. Eu agradeço recusando. Meu companheiro de viagem era de Cingapura e trabalhava há 20 anos como cozinheiro em Utrecht. Estava indo visitar os parentes em Bologna.

Fronteira Suíça-Itália. A lanterninha no olho estraga o sono. Os carabinieri já chegam fazendo barulho. Acordo mal humorado. O cozinheiro tem que abrir a maleta. Facas. Muitas facas. Os oficiais não gostam do que vêem. “Ma che cavolo!”. O interrogatório em inglês é um desastre. O passageiro de Cingapura não entende a pergunta e os italianos não sacam a resposta. Mas eles querem saber das facas. O japa fica nervoso e tenta explicar. Sangue escorrendo. Meu colega faz um talho no dedo. Truculentos, os oficiais abrem a outra valise. Roupas, lembrancinhas e fitas de vídeo. “Mas isso aqui é pornô?!”. “No, stories”. Sinto vergonha dos italianos. Quando eles viram as costas, o baixinho põe-se a arrumar a bagunça. "Fuckin' Italians". Irritado e humilhado, tinha dito sua última frase no trem.

De Roma Termini para o albergue da juventude. Saio do táxi já meio amassado, preencho minha ficha e vou largar a mochila no quarto. Dois japoneses e um americano são meus "room mates".

Começo a explorar a região. No fim da rua está o Estádio Olímpico, palco da final da Copa de 1990 e dos clássicos de futebol locais. O cambista me oferece ingressos para uma partida. Roma versus Borussia Dortmund. Copa da UEFA. Pelo preço, não compensa. Alguns velhinhos batem papo na praça em frente ao estádio. Puxo papo com um deles. “Ah, só os times do norte é que ganham os campeonatos. Aqui em Roma?? Nada. Só nos tempos do Falcão, o Rei!”.

No metrô sem destino. Olho para o mapa das estações, procurando alguma pista. “Colosseo? Hmm, parece interessante”. Desço e dou de cara com o Coliseu Romano. Simples assim. A obra continua ali de pé, no meio de uma avenida movimentada e com a vida rolando ao seu redor. Muitas centenas de anos atrás, lá dentro, gente era comida vida por leões para delírio do povo. Agora o gigante estava ali, no meio da metrópole, tendo suas entranhas visitadas por gente de outro lado do globo.

Não sou diferente. Me infiltro num grupo de estudantes. O guardinha pede meu bilhete na entrada. “Ah, faço parte na excursão”. Entrada grátis. Dispenso o guia e me perco pelo Coliseu. Turistas americanas pedem minha colaboração fotográfica. Não tem mais nada pra ver ali, mas não dá vontade de sair.



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O Coliseu Romano



Dou uma última olhada e vejo o gigante lá atrás, no meio da cidade, indiferente à passagem do tempo. Uma visita ao Foro Italico e dali para um típico café de Roma.

Cinco dias na Cidade Eterna e me perco em suas ruas estreitas, escadarias e praças. Frio de 8 graus e céu azul, sem uma nuvem sequer. “Fellini deve estar filmando isso de algum lugar”. É tudo tão perfeito, quase cenográfico. Fiats, scooters e as caixas de fósforo ambulantes Cinquecento circulando por todos os lados. Senhores de sobretudo no metrô, rapazes com echarpes da Lazio enroladas no pescoço e meninas apressadas de casacos pretos e olhos azuis. Via Veneto, Fontana di Trevi, Piazza di Spagna. Cinema puro.

No albergue, banho de água quase fria. Descansando o esqueleto no quarto, ouço um dos japoneses que não pára de espirrar. Saco um Dorflex da mochila e dou para o cara. Ele me retribui com um chocolate Milka e uma maçã. Educação nipônica. Um grupo de meninas brasileiras bate papo na recepção. Passo reto e me perco de novo nas ruas da cidade. Capuccino com canela e algum gelatto pra adoçar o bico. Continuo minhas jornadas de metrô sem rumo definido. Estou em Roma, mas não visito o Papa.

Deitado na penumbra, acho as últimas liras no bolso da jaqueta e sei que é hora de voltar. Na manhã seguinte, ligo para o Fiumicino e o vôo está lotado. “Só com desistência, senhor”. Minha passagem aérea não permitia reserva. Pego a mochila mesmo assim e chamo um táxi. Mauro, o taxista, fala com entusiasmo do Pelé e da final da Copa de 70.

Três horas largado no aeroporto. Compro bugigangas de 1 dólar na loja de souvenir e observo a fila de passageiros que parece não ter fim. “Acho que o senhor não conseguirá embarcar”. “Consigo, sim. Você vai ver”. Dali a pouco o Boeing da Alitalia já está com a turbina ligada. A mocinha do check-in faz sinal de positivo. Na boca do túnel para embarcar, só há mais um passageiro de última hora. Com a velha mochila nas costas, sigo pra dentro da lata voadora sem incomodá-lo. Era Falcão, o Rei de Roma.

Fim (??)

 Escrito por Mr Eddy às 23h11
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